
Em julho de 2008, fui convidado para uma apresentação de música clássica num contexto para lá de insólito – e mais para lá ainda dos limites geográficos em que costuma viver a grande maioria dos intérpretes e apreciadores dessa arte. Tratava-se da Festa do Manuelzão, em homenagem ao vaqueiro Manuel Nardi (foto acima), falecido em 1997, amigo de Guimarães Rosa e inspirador direto de um dos personagens mais famosos do escritor. O festival ocorre na vila onde vivia Manuelzão – Andrequicé, município de Três Marias, no sertão do sertão de Minas.
A vila é minúscula. O local dos espetáculos é um pequeno circo de lona e o chão é de terra. Ali, apresentam-se contadores de histórias e músicos locais, violeiros e percussionistas, além de convidados de outras partes do país, na maioria outros contadores de histórias e músicos. Assisti ao primeiro dia do festival: contadores locais representaram Guimarães Rosa para crianças, com uma delicadeza e uma sabedoria comunicativa raramente vistas em grandes centros urbanos. Logo o Rosa, com aquele texto belo, mas ambicioso, embebido em erudições. Depois, violeiros tocaram e crianças apresentaram danças folclóricas.
Minha primeira reação foi pensar: “Céus, o que estou fazendo aqui?” Afinal, o que eu trazia na bagagem era um repertório para violão erudito (incluindo nacionalistas como Villa-Lobos, vá lá, mas erudito) que acompanharia a leitura de passagens tão ou mais exigentes intelectualmente (que pretensão!) do romance ‘Grande Sertão: Veredas’. Seria possível transmitir algo para aquele público que, em sua maioria, jamais estivera frente a frente com a linguagem específica, quase acadêmica, de um concerto de música clássica?
Comecei o recital apreensivo, e com razão: em meio ao vento frio de julho que penetrava pelas frestas da lona, havia muitas crianças agitadas, algumas delas descalças, brincando no chão de terra. Seus pais tentavam contê-las, e as broncas contribuíam para o barulho. Esse ambiente sob a lona de circo, abrigando pessoas mais acostumadas à cantoria e danças folclóricas, não era exatamente propício à solene concentração e à sobriedade cênica esperadas de um concerto clássico. De início, a sintonia se abalou, mas o clima logo começou a mudar: na segunda peça, já havia alguma concentração no ar. E repentinamente – ou melhor, magicamente, como tudo o que nos surpreende no mundo de Guimarães Rosa – instalou-se um silêncio avassalador quando iniciei a peça ‘La Espiral Eterna’, de Leo Brouwer, que consiste num experimentalismo sonoro do começo ao fim, sem melodia e ritmo identificáveis – ou seja, sem concessões melódicas assobiáveis nem concessões percussivas tamboriláveis. Mas o que aconteceu foi que essa alquimia sonora experimental, cheia de repetições, ruídos e sons percussivos aleatórios, deixou todo mundo hipnotizado – inclusive as crianças, que pararam de brincar e berrar. Justo a música mais contemporânea de todas – dessas que o músico hesita em apresentar até nos grandes centros urbanos, temendo espantar o público melômano. Dali até o fim, o clima da apresentação foi mágico, silencioso e profundo como nunca. Não, não é preciso ter sapato lustrado ou vestido de noite para apreciar música “difícil”, como muitas vezes nos obriga um certo preconceito de artistas e público acadêmicos.
Ali, naquela sala de concerto de lona, de terno e colete, tive uma das melhores experiências da vida de intérprete e também de jornalista (pois anotei a história logo em seguida). Aquele mundo colorido, cheio de contadores de histórias, violeiros e improvisadores populares, tinha espaço de sobra para absorver outras linguagens – uma abertura maior que a de muitos habitantes dos grandes centros culturais e urbanos.
A vila era pobre, o chão era de terra, mas aquela gente voava. Até hoje, tento descobrir um jeito de tirar o terno e ser rico como eles.
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