Agenda | Pulga atrás do ouvido

O professor perpetuamente franco

Não são muitos os jornalistas no Brasil que dedicam suas melhores linhas à disseminação, para o maior público possível, da enorme riqueza da produção musical ocidental. A missão pode ser penosa. Os textos sobre a chamada música clássica ou erudita ainda são cercados de preconceitos (assim como o objeto de que tratam) e raramente ocupam grandes espaços na mídia mainstream. Comercialmente, quem mergulha nessa vereda da profissão pode ter muita dificuldade de encontrar emprego. Isso sem contar que é naturalmente complexo falar de música. Mesmo com a melhor das intenções, as palavras podem ditar maneiras de ouvir, reforçar rótulos, motivar associações conceituais duvidosas. Podem se interpor, enfim, entre os sons e os ouvintes, como o bêbado que, gesticulando no meio da rua para organizar o trânsito, acaba por complicá-lo.

Por isso é bom comemorar o curso de história da música de Irineu Franco Perpétuo na Casa do Saber, em São Paulo (mais detalhes abaixo). Além de lecionar, esse jornalista e professor está acostumado a se lançar na árdua tarefa de transmitir, por meio de palavras, os encantos da música de concerto. Também é bom constatar que, neste caso, as palavras não estão divorciadas da música, e podem ser saborosamente sonoras. Lembro-me de saraus literários na casa de um amigo em comum, onde Irineu recitava com paixão textos cheios de musicalidade. Jornalista que é artista dos sons vale em dobro, pois transmite o conhecimento pela razão e pela sensibilidade.

Por isso Irineu Franco Perpétuo é perpetuamente franco na paixão pela música e pelo jornalismo. Sim, o trocadilho é altamente questionável – mas serve para uma inserção didático-musical. Se este fosse um exercício de contraponto, a falha aqui seria o uso abusivo do uníssono, ou incidência simultânea de duas ou mais notas iguais, oitavadas ou não. O uníssono pode neutralizar a sensação de movimento e direcionalidade das várias frases em contraponto, porque as torna iguais e potencialmente monótonas.

Expandindo o conceito: o que ouvimos no rádio é muitas vezes feito de frases iguais. É recorrente, monótono, uníssono.

Não seja uníssono – vá ao curso do Irineu, ou ao menos procure ouvir a maior variedade possível de sons.

Serviço:

CURSO

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA

Irineu Franco Perpetuo

Com uma linguagem acessível ao não especialista, o curso faz uma panorâmica da história da música no Ocidente nos últimos quatro séculos, mostrando as obras e autores que tiveram papel fundamental na sua evolução.

Início: 14 JUN 2010

Duração: 4 encontros semanais

Dias/horários: Segundas-Feiras, às 19h30 (14/06, 21/06, 28/06, 05/07)

Casa do Saber- Shopping Cidade Jardim – av. Magalhães de Castro, 12.000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3552-1280

Horário de funcionamento: segunda a sexta: 13h às 22h

sábados: 10h às 18h

E-mail: info@casadosaber.com.br

14 JUN | 1. Os caminhos do Barroco
A grande arte de Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi e Händel, e sua síntese no gênio de J. S. Bach

21 JUN | 2. O estilo clássico
A consolidação das grandes formas da música em Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert

28 JUN | 3. A geração romântica
As diversas poéticas do século 19 em Chopin, Schumann, Liszt, Brahms, Berlioz, Mendelssohn e Wagner

05 JUL | 4. Modernidade e pós-modernidade
De Debussy e Stravinski a Boulez e Stockhausen, os “ismos” que marcaram o século 20: dodecafonismo, nacionalismo, neoclassicismo…

Irineu Franco Perpétuo – jornalista, escreve sobre música para a “Folha de S. Paulo” e é correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, de Barcelona. Colabora com a redação de textos para os concertos da OSESP.

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