Agenda | Pulga atrás do ouvido

Vuvuzela de uma nota só

É um si bemol. Constatei em todos os meios a meu alcance – televisão, internet, celular. Só em campo não entrei, mas os canais eletrônicos são suficientes. A nota infindável emitida pelas vuvuzelas na Copa do Mundo da África do Sul é um si bemol. Trata-se, possivelmente, da mais longa peça minimalista já composta em toda a história da música.

Nada contra a vuvuzela de uma nota só. Afinal, segundo uma das teorias sobre sua origem, a função do instrumento era a de convocar o povo a assembleias, assim como uma corneta europeia medieval. É um símbolo de união. Nas arquibancadas sul-africanas, povos do mundo todo falam a uma só voz – o si bemol.

Mas tinha de ser só uma nota?  E se a Copa  fosse uma oportunidade de escutarmos as várias músicas do mundo? Seria simples. Eis uma receita:

1. Fabricar vuvuzelas de diversos tamanhos e diâmetros. Cada uma emitiria uma nota musical diferente.

2. Combinar séries de vuvuzelas de acordo com uma escala musical típica da cultura de cada país que disputa a Copa. Exemplos: cinco notas da escala pentatônica para o Japão. Representando o  Brasil, poderiam ser escaladas as sete notas da escala mixolídia (conhece? Ouça a célebre conclusão instrumental de ‘Asa Branca’, de Luís Gonzaga). E assim por diante.

3. Distribuir os pacotes de vuvuzelas para cada torcida, de acordo com as notas musicais de seu país, na hora do jogo.

Imagine a música que sairia dessas vuvuzelas variadas. Provavelmente, seria um fuzuê danado, que continuaria atormentando os locutores esportivos e os ouvidos mais sensíveis. Mas seria mais divertido que o eterno si bemol. A mistura resultaria em uma curiosa e multifacetada identidade sonora de cada país. Isso sem falar do momento em que os torcedores começassem a exercer a criatividade, compondo pequenas peças com as variadas combinações de notas. E em diálogo com a torcida rival…

Concluo com uma prece pelo hexa:

Outras notas vão entrando, mas a vuvuzela é uma só…

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Certo, admito – não seria muito fácil distinguir as escalas musicais de cada país no meio da barulheira dos estádios. Talvez não seja tão didático, do ponto de vista da pedagogia. Mas seria ao menos uma inspiração para que os torcedores abrissem os ouvidos à cultura sonora de seus países.

No Brasil, o ensino da música será obrigatório nas escolas a partir de 2011, diz a lei. Que tal começar não pela sala de aula sonolenta, mas pelas torcidas organizadas? Não proponho um coral clássico, com barítonos, tenores, contraltos e sopranos de vestidos e ternos na geral – Deus me livre! Proponho apenas um inocente experimentalismo sonoro, a fim de enriquecer as tardes de domingo. E então? Para onde enviar essa proposta? Talvez começando pela página de contato da CBF? Ou direto com a Fifa?

PS – Esse texto virou manchete de capa no ótimo portal Jornalirismo. Um abraço orgulhoso a seus autores.

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O professor perpetuamente franco

Não são muitos os jornalistas no Brasil que dedicam suas melhores linhas à disseminação, para o maior público possível, da enorme riqueza da produção musical ocidental. A missão pode ser penosa. Os textos sobre a chamada música clássica ou erudita ainda são cercados de preconceitos (assim como o objeto de que tratam) e raramente ocupam grandes espaços na mídia mainstream. Comercialmente, quem mergulha nessa vereda da profissão pode ter muita dificuldade de encontrar emprego. Isso sem contar que é naturalmente complexo falar de música. Mesmo com a melhor das intenções, as palavras podem ditar maneiras de ouvir, reforçar rótulos, motivar associações conceituais duvidosas. Podem se interpor, enfim, entre os sons e os ouvintes, como o bêbado que, gesticulando no meio da rua para organizar o trânsito, acaba por complicá-lo.

Por isso é bom comemorar o curso de história da música de Irineu Franco Perpétuo na Casa do Saber, em São Paulo (mais detalhes abaixo). Além de lecionar, esse jornalista e professor está acostumado a se lançar na árdua tarefa de transmitir, por meio de palavras, os encantos da música de concerto. Também é bom constatar que, neste caso, as palavras não estão divorciadas da música, e podem ser saborosamente sonoras. Lembro-me de saraus literários na casa de um amigo em comum, onde Irineu recitava com paixão textos cheios de musicalidade. Jornalista que é artista dos sons vale em dobro, pois transmite o conhecimento pela razão e pela sensibilidade.

Por isso Irineu Franco Perpétuo é perpetuamente franco na paixão pela música e pelo jornalismo. Sim, o trocadilho é altamente questionável – mas serve para uma inserção didático-musical. Se este fosse um exercício de contraponto, a falha aqui seria o uso abusivo do uníssono, ou incidência simultânea de duas ou mais notas iguais, oitavadas ou não. O uníssono pode neutralizar a sensação de movimento e direcionalidade das várias frases em contraponto, porque as torna iguais e potencialmente monótonas.

Expandindo o conceito: o que ouvimos no rádio é muitas vezes feito de frases iguais. É recorrente, monótono, uníssono.

Não seja uníssono – vá ao curso do Irineu, ou ao menos procure ouvir a maior variedade possível de sons.

Serviço:

CURSO

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA

Irineu Franco Perpetuo

Com uma linguagem acessível ao não especialista, o curso faz uma panorâmica da história da música no Ocidente nos últimos quatro séculos, mostrando as obras e autores que tiveram papel fundamental na sua evolução.

Início: 14 JUN 2010

Duração: 4 encontros semanais

Dias/horários: Segundas-Feiras, às 19h30 (14/06, 21/06, 28/06, 05/07)

Casa do Saber- Shopping Cidade Jardim – av. Magalhães de Castro, 12.000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3552-1280

Horário de funcionamento: segunda a sexta: 13h às 22h

sábados: 10h às 18h

E-mail: info@casadosaber.com.br

14 JUN | 1. Os caminhos do Barroco
A grande arte de Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi e Händel, e sua síntese no gênio de J. S. Bach

21 JUN | 2. O estilo clássico
A consolidação das grandes formas da música em Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert

28 JUN | 3. A geração romântica
As diversas poéticas do século 19 em Chopin, Schumann, Liszt, Brahms, Berlioz, Mendelssohn e Wagner

05 JUL | 4. Modernidade e pós-modernidade
De Debussy e Stravinski a Boulez e Stockhausen, os “ismos” que marcaram o século 20: dodecafonismo, nacionalismo, neoclassicismo…

Irineu Franco Perpétuo – jornalista, escreve sobre música para a “Folha de S. Paulo” e é correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, de Barcelona. Colabora com a redação de textos para os concertos da OSESP.

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Biblioteca sonora | Pulga atrás do ouvido

Vivaldi rasgado

O movimento da música antiga, que há décadas busca promover interpretações historicamente informadas em instrumentos de época (réplicas ou mesmo originais), já inspirou inúmeras concepções e gravações diferentes. A premissa é consenso: a importância documental e o valor artístico de se buscar a técnica, o estilo e a expressividade da época e do contexto em que as obras musicais foram compostas. Na prática, contudo, jamais se alcança verdades imutáveis. Afinal, a rigor não é possível reproduzir com total fidelidade as técnicas, a expressividade, o humor, as manias de épocas remotas das quais não há registro sonoro e, muitas vezes, nem mesmo registro em palavras.

Ainda bem. Se interpretações definitivas existissem, provavelmente haveria menos lugar para experiências surpreendentes como o registro das ‘Quatro Estações’ de Vivaldi pelo grupo de música barroca italiano Il Giardino Armonico, sob regência de Giovanni Antonini. Sua gama de dinâmica e andamento supera a média, tanto das orquestras antigas quanto das modernas. Não é sempre que se ouve tanta energia e personalidade em um conjunto pequeno, com instrumentos de época (como bom exemplo, assista ao vídeo acima pelo menos até o primeiro solo do concerto para violino). Os mais conservadores escutam até exageros. De qualquer modo, nas mãos do Giardino, esses instrumentos antigos derrubam qualquer desconfiança de que os instrumentos de hoje sejam mais precisos, potentes e condizentes com nossa época, nossas enormes salas de concerto e nossos ouvidos.

A despeito das querelas infindáveis sobre as interpretações históricas, é obrigatório ouvir a performance eletrizante do Giardino. Basta ouvir alguns acordes e linhas melódicas para notar como a concepção enérgica do regente transforma as Quatro Estações num animado teatro de sons, com especial poder expressivo. O grupo consegue extrair grandes tensões e contrastes daqueles instrumentos que, no fim das contas, são peças de madeira e cordas esticadas -basicamente, como os violinos e violoncelos modernos. Mas daí vem grande parte da dramaticidade: a fricção dos arcos parece ter mais garra, os crescendos parecem vir mais lá de baixo, parecem subir mais alto. Músicos superam teorias. Só ouvindo para ver.

Por falar em superar teoria, já ouviu um rabequeiro tradicional do nosso Nordeste? Aquele som rasgado, sofrido, que vem das entranhas da alma da gente e da madeira? Coisa que arranha, atrita, e nos faz a cócega certa para transmitir aquele mundo daqueles músicos. Experimente reproduzir as mesmas linhas melódicas e rítmicas desse instrumento rústico no melhor e mais caro violino moderno do planeta. Vai sair uma melodia teoricamente mais lisinha, polida, potente. E, na prática, sem graça.

Questões de interpretação à parte, talvez seja este um dos maiores segredos da sedução dos instrumentos considerados mais “rústicos”. Aparentemente limitados em quantidade (potência acústica), resta-lhes o mais importante: a qualidade.

Serviço:
Vivaldi: Le Quattro Stagioni
Il Giardino Armonico
Teldec, 2001

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