Agenda | Biblioteca sonora

O sertão, os sons e a redenção

Nesta quarta-feira, 24 de março de 2010, será lançado em São Paulo o livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa: dimensões regionais e universalidade (editora Nova Aguilar), organizado por Ligia Chiappini e Marcel Vejmelka. O livro é resultado de uma ótima série de conferências realizada em Berlim em dezembro de 2008 pela professora Ligia, da Universidade Livre de Berlim, reunindo especialistas do mundo todo. O autor deste blog encerraria o evento alemão apresentando o espetáculo “grande sertão: variações” (ver post anterior), mas a crise financeira global fez os órgãos públicos cortarem a verba milionária da passagem em classe econômica que o levaria até o Velho Mundo.

Agora, as mesmas pessoas vêm a São Paulo, incluindo a filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, e me oferecem uma chance de me redimir apresentando trechos do espetáculo durante o lançamento do livro. O evento ocorre no Instituto de Estudos Brasileiros, na USP, local que abriga também outra programação maravilhosa: a Roda de Leitura de Guimarães Rosa, organizada há alguns anos por Rosa Haruco Tane. É uma iniciativa admirável, em um clima idem. A Roda proporciona momentos de rara beleza.

Obrigado a Ligia, Marcel, Vilma, Rosa Haruco e a todos os demais envolvidos no seminário em Berlim, na autoria do livro, na Roda de Leitura e na festa de lançamento. Será um prazer revisitar o sertão e contribuir, com sons, para este mundo que nos habita.

SERVIÇO:
Lançamento do livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – USP
Quarta-feira, 24 de março de 2010
Av. Prof. Melo Morais, travessa 8, 140
Cidade Universitária – São Paulo – SP
Entrada franca. Informações: (11) 3091-1149

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Biblioteca sonora | Pulga atrás do ouvido

Vivaldi rasgado

O movimento da música antiga, que há décadas busca promover interpretações historicamente informadas em instrumentos de época (réplicas ou mesmo originais), já inspirou inúmeras concepções e gravações diferentes. A premissa é consenso: a importância documental e o valor artístico de se buscar a técnica, o estilo e a expressividade da época e do contexto em que as obras musicais foram compostas. Na prática, contudo, jamais se alcança verdades imutáveis. Afinal, a rigor não é possível reproduzir com total fidelidade as técnicas, a expressividade, o humor, as manias de épocas remotas das quais não há registro sonoro e, muitas vezes, nem mesmo registro em palavras.

Ainda bem. Se interpretações definitivas existissem, provavelmente haveria menos lugar para experiências surpreendentes como o registro das ‘Quatro Estações’ de Vivaldi pelo grupo de música barroca italiano Il Giardino Armonico, sob regência de Giovanni Antonini. Sua gama de dinâmica e andamento supera a média, tanto das orquestras antigas quanto das modernas. Não é sempre que se ouve tanta energia e personalidade em um conjunto pequeno, com instrumentos de época (como bom exemplo, assista ao vídeo acima pelo menos até o primeiro solo do concerto para violino). Os mais conservadores escutam até exageros. De qualquer modo, nas mãos do Giardino, esses instrumentos antigos derrubam qualquer desconfiança de que os instrumentos de hoje sejam mais precisos, potentes e condizentes com nossa época, nossas enormes salas de concerto e nossos ouvidos.

A despeito das querelas infindáveis sobre as interpretações históricas, é obrigatório ouvir a performance eletrizante do Giardino. Basta ouvir alguns acordes e linhas melódicas para notar como a concepção enérgica do regente transforma as Quatro Estações num animado teatro de sons, com especial poder expressivo. O grupo consegue extrair grandes tensões e contrastes daqueles instrumentos que, no fim das contas, são peças de madeira e cordas esticadas -basicamente, como os violinos e violoncelos modernos. Mas daí vem grande parte da dramaticidade: a fricção dos arcos parece ter mais garra, os crescendos parecem vir mais lá de baixo, parecem subir mais alto. Músicos superam teorias. Só ouvindo para ver.

Por falar em superar teoria, já ouviu um rabequeiro tradicional do nosso Nordeste? Aquele som rasgado, sofrido, que vem das entranhas da alma da gente e da madeira? Coisa que arranha, atrita, e nos faz a cócega certa para transmitir aquele mundo daqueles músicos. Experimente reproduzir as mesmas linhas melódicas e rítmicas desse instrumento rústico no melhor e mais caro violino moderno do planeta. Vai sair uma melodia teoricamente mais lisinha, polida, potente. E, na prática, sem graça.

Questões de interpretação à parte, talvez seja este um dos maiores segredos da sedução dos instrumentos considerados mais “rústicos”. Aparentemente limitados em quantidade (potência acústica), resta-lhes o mais importante: a qualidade.

Serviço:
Vivaldi: Le Quattro Stagioni
Il Giardino Armonico
Teldec, 2001

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