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'Grande sertão: variações' ganha prêmio da Funarte

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Depois do cancelamento do apoio à turnê europeia do espetáculo grande sertão: variações (veja post aqui), uma boa notícia: a Funarte acaba de premiar meu projeto com a Bolsa de Circulação Literária (confira a notícia no site). O projeto é o único entre os premiados que utiliza a música erudita como canal de divulgação da literatura.

É uma felicidade saber que os trechos de Guimarães Rosa, acompanhados pela música de Villa-Lobos e outros, vão passear pelo Brasil nos próximos meses, com apresentações do espetáculo em duas regiões: Sudeste (São Paulo e Minas) e Nordeste (Pernambuco). O projeto merecerá um blog só para ele, aguardem.

A última apresentação desse recital, até agora, fora oferecida à filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, durante evento na USP (foto acima). Guimarães Rosa e sua família realmente dão sorte. Agradeço imensamente a eles.

O escritor mineiro tanto frequenta este espaço que o blog até parece dedicado à literatura. Bom, o espetáculo é também musical. E o blog trata de sons. Todos.

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Agenda | Pulga atrás do ouvido

Vuvuzela de uma nota só

É um si bemol. Constatei em todos os meios a meu alcance – televisão, internet, celular. Só em campo não entrei, mas os canais eletrônicos são suficientes. A nota infindável emitida pelas vuvuzelas na Copa do Mundo da África do Sul é um si bemol. Trata-se, possivelmente, da mais longa peça minimalista já composta em toda a história da música.

Nada contra a vuvuzela de uma nota só. Afinal, segundo uma das teorias sobre sua origem, a função do instrumento era a de convocar o povo a assembleias, assim como uma corneta europeia medieval. É um símbolo de união. Nas arquibancadas sul-africanas, povos do mundo todo falam a uma só voz – o si bemol.

Mas tinha de ser só uma nota?  E se a Copa  fosse uma oportunidade de escutarmos as várias músicas do mundo? Seria simples. Eis uma receita:

1. Fabricar vuvuzelas de diversos tamanhos e diâmetros. Cada uma emitiria uma nota musical diferente.

2. Combinar séries de vuvuzelas de acordo com uma escala musical típica da cultura de cada país que disputa a Copa. Exemplos: cinco notas da escala pentatônica para o Japão. Representando o  Brasil, poderiam ser escaladas as sete notas da escala mixolídia (conhece? Ouça a célebre conclusão instrumental de ‘Asa Branca’, de Luís Gonzaga). E assim por diante.

3. Distribuir os pacotes de vuvuzelas para cada torcida, de acordo com as notas musicais de seu país, na hora do jogo.

Imagine a música que sairia dessas vuvuzelas variadas. Provavelmente, seria um fuzuê danado, que continuaria atormentando os locutores esportivos e os ouvidos mais sensíveis. Mas seria mais divertido que o eterno si bemol. A mistura resultaria em uma curiosa e multifacetada identidade sonora de cada país. Isso sem falar do momento em que os torcedores começassem a exercer a criatividade, compondo pequenas peças com as variadas combinações de notas. E em diálogo com a torcida rival…

Concluo com uma prece pelo hexa:

Outras notas vão entrando, mas a vuvuzela é uma só…

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Certo, admito – não seria muito fácil distinguir as escalas musicais de cada país no meio da barulheira dos estádios. Talvez não seja tão didático, do ponto de vista da pedagogia. Mas seria ao menos uma inspiração para que os torcedores abrissem os ouvidos à cultura sonora de seus países.

No Brasil, o ensino da música será obrigatório nas escolas a partir de 2011, diz a lei. Que tal começar não pela sala de aula sonolenta, mas pelas torcidas organizadas? Não proponho um coral clássico, com barítonos, tenores, contraltos e sopranos de vestidos e ternos na geral – Deus me livre! Proponho apenas um inocente experimentalismo sonoro, a fim de enriquecer as tardes de domingo. E então? Para onde enviar essa proposta? Talvez começando pela página de contato da CBF? Ou direto com a Fifa?

PS – Esse texto virou manchete de capa no ótimo portal Jornalirismo. Um abraço orgulhoso a seus autores.

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Agenda | Pulga atrás do ouvido

O professor perpetuamente franco

Não são muitos os jornalistas no Brasil que dedicam suas melhores linhas à disseminação, para o maior público possível, da enorme riqueza da produção musical ocidental. A missão pode ser penosa. Os textos sobre a chamada música clássica ou erudita ainda são cercados de preconceitos (assim como o objeto de que tratam) e raramente ocupam grandes espaços na mídia mainstream. Comercialmente, quem mergulha nessa vereda da profissão pode ter muita dificuldade de encontrar emprego. Isso sem contar que é naturalmente complexo falar de música. Mesmo com a melhor das intenções, as palavras podem ditar maneiras de ouvir, reforçar rótulos, motivar associações conceituais duvidosas. Podem se interpor, enfim, entre os sons e os ouvintes, como o bêbado que, gesticulando no meio da rua para organizar o trânsito, acaba por complicá-lo.

Por isso é bom comemorar o curso de história da música de Irineu Franco Perpétuo na Casa do Saber, em São Paulo (mais detalhes abaixo). Além de lecionar, esse jornalista e professor está acostumado a se lançar na árdua tarefa de transmitir, por meio de palavras, os encantos da música de concerto. Também é bom constatar que, neste caso, as palavras não estão divorciadas da música, e podem ser saborosamente sonoras. Lembro-me de saraus literários na casa de um amigo em comum, onde Irineu recitava com paixão textos cheios de musicalidade. Jornalista que é artista dos sons vale em dobro, pois transmite o conhecimento pela razão e pela sensibilidade.

Por isso Irineu Franco Perpétuo é perpetuamente franco na paixão pela música e pelo jornalismo. Sim, o trocadilho é altamente questionável – mas serve para uma inserção didático-musical. Se este fosse um exercício de contraponto, a falha aqui seria o uso abusivo do uníssono, ou incidência simultânea de duas ou mais notas iguais, oitavadas ou não. O uníssono pode neutralizar a sensação de movimento e direcionalidade das várias frases em contraponto, porque as torna iguais e potencialmente monótonas.

Expandindo o conceito: o que ouvimos no rádio é muitas vezes feito de frases iguais. É recorrente, monótono, uníssono.

Não seja uníssono – vá ao curso do Irineu, ou ao menos procure ouvir a maior variedade possível de sons.

Serviço:

CURSO

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA

Irineu Franco Perpetuo

Com uma linguagem acessível ao não especialista, o curso faz uma panorâmica da história da música no Ocidente nos últimos quatro séculos, mostrando as obras e autores que tiveram papel fundamental na sua evolução.

Início: 14 JUN 2010

Duração: 4 encontros semanais

Dias/horários: Segundas-Feiras, às 19h30 (14/06, 21/06, 28/06, 05/07)

Casa do Saber- Shopping Cidade Jardim – av. Magalhães de Castro, 12.000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3552-1280

Horário de funcionamento: segunda a sexta: 13h às 22h

sábados: 10h às 18h

E-mail: info@casadosaber.com.br

14 JUN | 1. Os caminhos do Barroco
A grande arte de Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi e Händel, e sua síntese no gênio de J. S. Bach

21 JUN | 2. O estilo clássico
A consolidação das grandes formas da música em Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert

28 JUN | 3. A geração romântica
As diversas poéticas do século 19 em Chopin, Schumann, Liszt, Brahms, Berlioz, Mendelssohn e Wagner

05 JUL | 4. Modernidade e pós-modernidade
De Debussy e Stravinski a Boulez e Stockhausen, os “ismos” que marcaram o século 20: dodecafonismo, nacionalismo, neoclassicismo…

Irineu Franco Perpétuo – jornalista, escreve sobre música para a “Folha de S. Paulo” e é correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, de Barcelona. Colabora com a redação de textos para os concertos da OSESP.

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Agenda | Biblioteca sonora

O sertão, os sons e a redenção

Nesta quarta-feira, 24 de março de 2010, será lançado em São Paulo o livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa: dimensões regionais e universalidade (editora Nova Aguilar), organizado por Ligia Chiappini e Marcel Vejmelka. O livro é resultado de uma ótima série de conferências realizada em Berlim em dezembro de 2008 pela professora Ligia, da Universidade Livre de Berlim, reunindo especialistas do mundo todo. O autor deste blog encerraria o evento alemão apresentando o espetáculo “grande sertão: variações” (ver post anterior), mas a crise financeira global fez os órgãos públicos cortarem a verba milionária da passagem em classe econômica que o levaria até o Velho Mundo.

Agora, as mesmas pessoas vêm a São Paulo, incluindo a filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, e me oferecem uma chance de me redimir apresentando trechos do espetáculo durante o lançamento do livro. O evento ocorre no Instituto de Estudos Brasileiros, na USP, local que abriga também outra programação maravilhosa: a Roda de Leitura de Guimarães Rosa, organizada há alguns anos por Rosa Haruco Tane. É uma iniciativa admirável, em um clima idem. A Roda proporciona momentos de rara beleza.

Obrigado a Ligia, Marcel, Vilma, Rosa Haruco e a todos os demais envolvidos no seminário em Berlim, na autoria do livro, na Roda de Leitura e na festa de lançamento. Será um prazer revisitar o sertão e contribuir, com sons, para este mundo que nos habita.

SERVIÇO:
Lançamento do livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – USP
Quarta-feira, 24 de março de 2010
Av. Prof. Melo Morais, travessa 8, 140
Cidade Universitária – São Paulo – SP
Entrada franca. Informações: (11) 3091-1149

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