É um si bemol. Constatei em todos os meios a meu alcance – televisão, internet, celular. Só em campo não entrei, mas os canais eletrônicos são suficientes. A nota infindável emitida pelas vuvuzelas na Copa do Mundo da África do Sul é um si bemol. Trata-se, possivelmente, da mais longa peça minimalista já composta em toda a história da música.
Nada contra a vuvuzela de uma nota só. Afinal, segundo uma das teorias sobre sua origem, a função do instrumento era a de convocar o povo a assembleias, assim como uma corneta europeia medieval. É um símbolo de união. Nas arquibancadas sul-africanas, povos do mundo todo falam a uma só voz – o si bemol.
Mas tinha de ser só uma nota? E se a Copa fosse uma oportunidade de escutarmos as várias músicas do mundo? Seria simples. Eis uma receita:
1. Fabricar vuvuzelas de diversos tamanhos e diâmetros. Cada uma emitiria uma nota musical diferente.
2. Combinar séries de vuvuzelas de acordo com uma escala musical típica da cultura de cada país que disputa a Copa. Exemplos: cinco notas da escala pentatônica para o Japão. Representando o Brasil, poderiam ser escaladas as sete notas da escala mixolídia (conhece? Ouça a célebre conclusão instrumental de ‘Asa Branca’, de Luís Gonzaga). E assim por diante.
3. Distribuir os pacotes de vuvuzelas para cada torcida, de acordo com as notas musicais de seu país, na hora do jogo.
Imagine a música que sairia dessas vuvuzelas variadas. Provavelmente, seria um fuzuê danado, que continuaria atormentando os locutores esportivos e os ouvidos mais sensíveis. Mas seria mais divertido que o eterno si bemol. A mistura resultaria em uma curiosa e multifacetada identidade sonora de cada país. Isso sem falar do momento em que os torcedores começassem a exercer a criatividade, compondo pequenas peças com as variadas combinações de notas. E em diálogo com a torcida rival…
Concluo com uma prece pelo hexa:
Outras notas vão entrando, mas a vuvuzela é uma só…
———————-
Certo, admito – não seria muito fácil distinguir as escalas musicais de cada país no meio da barulheira dos estádios. Talvez não seja tão didático, do ponto de vista da pedagogia. Mas seria ao menos uma inspiração para que os torcedores abrissem os ouvidos à cultura sonora de seus países.
No Brasil, o ensino da música será obrigatório nas escolas a partir de 2011, diz a lei. Que tal começar não pela sala de aula sonolenta, mas pelas torcidas organizadas? Não proponho um coral clássico, com barítonos, tenores, contraltos e sopranos de vestidos e ternos na geral – Deus me livre! Proponho apenas um inocente experimentalismo sonoro, a fim de enriquecer as tardes de domingo. E então? Para onde enviar essa proposta? Talvez começando pela página de contato da CBF? Ou direto com a Fifa?
PS – Esse texto virou manchete de capa no ótimo portal Jornalirismo. Um abraço orgulhoso a seus autores.
Não são muitos os jornalistas no Brasil que dedicam suas melhores linhas à disseminação, para o maior público possível, da enorme riqueza da produção musical ocidental. A missão pode ser penosa. Os textos sobre a chamada música clássica ou erudita ainda são cercados de preconceitos (assim como o objeto de que tratam) e raramente ocupam grandes espaços na mídia mainstream. Comercialmente, quem mergulha nessa vereda da profissão pode ter muita dificuldade de encontrar emprego. Isso sem contar que é naturalmente complexo falar de música. Mesmo com a melhor das intenções, as palavras podem ditar maneiras de ouvir, reforçar rótulos, motivar associações conceituais duvidosas. Podem se interpor, enfim, entre os sons e os ouvintes, como o bêbado que, gesticulando no meio da rua para organizar o trânsito, acaba por complicá-lo.
Por isso é bom comemorar o curso de história da música de Irineu Franco Perpétuo na Casa do Saber, em São Paulo (mais detalhes abaixo). Além de lecionar, esse jornalista e professor está acostumado a se lançar na árdua tarefa de transmitir, por meio de palavras, os encantos da música de concerto. Também é bom constatar que, neste caso, as palavras não estão divorciadas da música, e podem ser saborosamente sonoras. Lembro-me de saraus literários na casa de um amigo em comum, onde Irineu recitava com paixão textos cheios de musicalidade. Jornalista que é artista dos sons vale em dobro, pois transmite o conhecimento pela razão e pela sensibilidade.
Por isso Irineu Franco Perpétuo é perpetuamente franco na paixão pela música e pelo jornalismo. Sim, o trocadilho é altamente questionável – mas serve para uma inserção didático-musical. Se este fosse um exercício de contraponto, a falha aqui seria o uso abusivo do uníssono, ou incidência simultânea de duas ou mais notas iguais, oitavadas ou não. O uníssono pode neutralizar a sensação de movimento e direcionalidade das várias frases em contraponto, porque as torna iguais e potencialmente monótonas.
Expandindo o conceito: o que ouvimos no rádio é muitas vezes feito de frases iguais. É recorrente, monótono, uníssono.
Não seja uníssono – vá ao curso do Irineu, ou ao menos procure ouvir a maior variedade possível de sons.
Serviço:
CURSO
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA
Irineu Franco Perpetuo
Com uma linguagem acessível ao não especialista, o curso faz uma panorâmica da história da música no Ocidente nos últimos quatro séculos, mostrando as obras e autores que tiveram papel fundamental na sua evolução.
Início: 14 JUN 2010
Duração: 4 encontros semanais
Dias/horários: Segundas-Feiras, às 19h30 (14/06, 21/06, 28/06, 05/07)
Casa do Saber- Shopping Cidade Jardim – av. Magalhães de Castro, 12.000 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3552-1280
Horário de funcionamento: segunda a sexta: 13h às 22h
sábados: 10h às 18h
E-mail: info@casadosaber.com.br
14 JUN | 1. Os caminhos do Barroco
A grande arte de Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi e Händel, e sua síntese no gênio de J. S. Bach
21 JUN | 2. O estilo clássico
A consolidação das grandes formas da música em Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert
28 JUN | 3. A geração romântica
As diversas poéticas do século 19 em Chopin, Schumann, Liszt, Brahms, Berlioz, Mendelssohn e Wagner
05 JUL | 4. Modernidade e pós-modernidade
De Debussy e Stravinski a Boulez e Stockhausen, os “ismos” que marcaram o século 20: dodecafonismo, nacionalismo, neoclassicismo…
Irineu Franco Perpétuo – jornalista, escreve sobre música para a “Folha de S. Paulo” e é correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, de Barcelona. Colabora com a redação de textos para os concertos da OSESP.
Nesta quarta-feira, 24 de março de 2010, será lançado em São Paulo o livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa: dimensões regionais e universalidade (editora Nova Aguilar), organizado por Ligia Chiappini e Marcel Vejmelka. O livro é resultado de uma ótima série de conferências realizada em Berlim em dezembro de 2008 pela professora Ligia, da Universidade Livre de Berlim, reunindo especialistas do mundo todo. O autor deste blog encerraria o evento alemão apresentando o espetáculo “grande sertão: variações” (ver post anterior), mas a crise financeira global fez os órgãos públicos cortarem a verba milionária da passagem em classe econômica que o levaria até o Velho Mundo.
Agora, as mesmas pessoas vêm a São Paulo, incluindo a filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, e me oferecem uma chance de me redimir apresentando trechos do espetáculo durante o lançamento do livro. O evento ocorre no Instituto de Estudos Brasileiros, na USP, local que abriga também outra programação maravilhosa: a Roda de Leitura de Guimarães Rosa, organizada há alguns anos por Rosa Haruco Tane. É uma iniciativa admirável, em um clima idem. A Roda proporciona momentos de rara beleza.
Obrigado a Ligia, Marcel, Vilma, Rosa Haruco e a todos os demais envolvidos no seminário em Berlim, na autoria do livro, na Roda de Leitura e na festa de lançamento. Será um prazer revisitar o sertão e contribuir, com sons, para este mundo que nos habita.
SERVIÇO:
Lançamento do livro Espaços e Caminhos de João Guimarães Rosa
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – USP
Quarta-feira, 24 de março de 2010
Av. Prof. Melo Morais, travessa 8, 140
Cidade Universitária – São Paulo – SP
Entrada franca. Informações: (11) 3091-1149
Em julho de 2008, fui convidado para uma apresentação de música clássica num contexto para lá de insólito – e mais para lá ainda dos limites geográficos em que costuma viver a grande maioria dos intérpretes e apreciadores dessa arte. Tratava-se da Festa do Manuelzão, em homenagem ao vaqueiro Manuel Nardi (foto acima), falecido em 1997, amigo de Guimarães Rosa e inspirador direto de um dos personagens mais famosos do escritor. O festival ocorre na vila onde vivia Manuelzão – Andrequicé, município de Três Marias, no sertão do sertão de Minas.
A vila é minúscula. O local dos espetáculos é um pequeno circo de lona e o chão é de terra. Ali, apresentam-se contadores de histórias e músicos locais, violeiros e percussionistas, além de convidados de outras partes do país, na maioria outros contadores de histórias e músicos. Assisti ao primeiro dia do festival: contadores locais representaram Guimarães Rosa para crianças, com uma delicadeza e uma sabedoria comunicativa raramente vistas em grandes centros urbanos. Logo o Rosa, com aquele texto belo, mas ambicioso, embebido em erudições. Depois, violeiros tocaram e crianças apresentaram danças folclóricas.
Minha primeira reação foi pensar: “Céus, o que estou fazendo aqui?” Afinal, o que eu trazia na bagagem era um repertório para violão erudito (incluindo nacionalistas como Villa-Lobos, vá lá, mas erudito) que acompanharia a leitura de passagens tão ou mais exigentes intelectualmente (que pretensão!) do romance ‘Grande Sertão: Veredas’. Seria possível transmitir algo para aquele público que, em sua maioria, jamais estivera frente a frente com a linguagem específica, quase acadêmica, de um concerto de música clássica?
Comecei o recital apreensivo, e com razão: em meio ao vento frio de julho que penetrava pelas frestas da lona, havia muitas crianças agitadas, algumas delas descalças, brincando no chão de terra. Seus pais tentavam contê-las, e as broncas contribuíam para o barulho. Esse ambiente sob a lona de circo, abrigando pessoas mais acostumadas à cantoria e danças folclóricas, não era exatamente propício à solene concentração e à sobriedade cênica esperadas de um concerto clássico. De início, a sintonia se abalou, mas o clima logo começou a mudar: na segunda peça, já havia alguma concentração no ar. E repentinamente – ou melhor, magicamente, como tudo o que nos surpreende no mundo de Guimarães Rosa – instalou-se um silêncio avassalador quando iniciei a peça ‘La Espiral Eterna’, de Leo Brouwer, que consiste num experimentalismo sonoro do começo ao fim, sem melodia e ritmo identificáveis – ou seja, sem concessões melódicas assobiáveis nem concessões percussivas tamboriláveis. Mas o que aconteceu foi que essa alquimia sonora experimental, cheia de repetições, ruídos e sons percussivos aleatórios, deixou todo mundo hipnotizado – inclusive as crianças, que pararam de brincar e berrar. Justo a música mais contemporânea de todas – dessas que o músico hesita em apresentar até nos grandes centros urbanos, temendo espantar o público melômano. Dali até o fim, o clima da apresentação foi mágico, silencioso e profundo como nunca. Não, não é preciso ter sapato lustrado ou vestido de noite para apreciar música “difícil”, como muitas vezes nos obriga um certo preconceito de artistas e público acadêmicos.
Ali, naquela sala de concerto de lona, de terno e colete, tive uma das melhores experiências da vida de intérprete e também de jornalista (pois anotei a história logo em seguida). Aquele mundo colorido, cheio de contadores de histórias, violeiros e improvisadores populares, tinha espaço de sobra para absorver outras linguagens – uma abertura maior que a de muitos habitantes dos grandes centros culturais e urbanos.
A vila era pobre, o chão era de terra, mas aquela gente voava. Até hoje, tento descobrir um jeito de tirar o terno e ser rico como eles.
Se a música parasse de soar completamente por alguns minutos, o mundo seria tomado pelo caos. É o que pensa Leo Brouwer, festejado compositor cubano que esteve recentemente em São Paulo regendo orquestras e ensinando estudantes de música. Como provar cientificamente o acerto ou erro desta afirmação? E como não ser seduzido por ela?
Em 2008, foi aprovada uma lei que torna a educação musical obrigatória nas escolas – uma prática que fora cultivada no Brasil no passado e existe até hoje na Europa, com os educadores defendendo que a música é fundamental para a formação do indivíduo e do cidadão. Um dos efeitos da lei já é sentido: aspirantes a professores lotam os cursos de licentiatura em música das universidades. É com esta ideia de avanço educacional que crescem no Brasil, em ritmo e proporções impressionantes, programas de inserção sociocultural por meio do ensino da música clássica. Só na Grande São Paulo, houve um boom no último ano e programas como o Projeto Guri e seu desmembramento mais recente, Guri Santa Marcelina, já ensinam dezenas de milhares de crianças – principalmente nas regiões menos favorecidas -, que agora têm mais uma sofisticada e desafiadora opção para sair da rua por algo que vale a pena, desenvolver mais habilidades cognitivas e crescer a ponto de se tornar cidadãos no exercício de todos os seus direitos em termos sociais, políticos e, claro, culturais.
Em outros âmbitos, a música dita “clássica”, para alguns confinada a salas de concerto de elite, se expande inexoravelmente e torna-se opção acessível a todos por meio da internet e da popularização do conceito das grandes orquestras marcadas pela ambição e excelência artísticas – cujo exemplo mais clássico, em ambos os sentidos, é a OSESP. Os festivais de música que reúnem concertos e cursos com artistas e alunos do mundo todo se multiplicam no Brasil, multiplicando também outros grupos envolvidos – professores, estudantes, produtores, administradores, jornalistas e, justificando tudo isso, espectadores. Longe dos palcos, a música clássica também permeia o dia-a-dia embalando os bebês no quarto, confortando os enfermos nos hospitais ou simplesmente conquistando espaço nos PCs e tocadores portáteis.
Forma-se uma grande paisagem sonora, onde cada vez mais pessoas têm acesso a uma das mais ricas produções culturais da humanidade – a música ocidental dos últimos 200 anos, somada às contribuições de cada povo específico, com suas tradições, canções e danças características. E este mundo de sons não se pode prender em nenhum museu. Viaja por entre os momentos de nosso dia-a-dia, mesmo que disso não tenhamos consciência, e é capaz de nos modificar e enriquecer.
Crônicas, personagens, eventos, gravações e livros povoam este blog, que busca inspirar os leitores para a escuta mais rica possível.
Se a música parasse de soar completamente por alguns minutos, o mundo seria tomado pelo caos. É o que pensa Leo Brouwer, festejado compositor cubano que esteve recentemente em São Paulo regendo orquestras e ensinando estudantes de música. Como provar cientificamente o acerto ou erro desta afirmação? E como não ser seduzido por ela?
Em 2008, foi aprovada uma lei que torna a educação musical obrigatória nas escolas – uma prática que fora cultivada no Brasil no passado e existe até hoje na Europa, com os educadores defendendo que a música é fundamental para a formação do indivíduo e do cidadão. Um dos efeitos da lei já é sentido: aspirantes a professores lotam os cursos de licentiatura em música das universidades. É com esta ideia de avanço educacional que crescem no Brasil, em ritmo e proporções impressionantes, programas de inserção sociocultural por meio do ensino da música clássica. Só na Grande São Paulo, houve um boom no último ano e programas como o Projeto Guri e seu desmembramento mais recente, Guri Santa Marcelina, já ensinam dezenas de milhares de crianças – principalmente nas regiões menos favorecidas -, que agora têm mais uma sofisticada e desafiadora opção para sair da rua por algo que vale a pena, desenvolver mais habilidades cognitivas e crescer a ponto de se tornar cidadãos no exercício de todos os seus direitos em termos sociais, políticos e, claro, culturais.
Em outros âmbitos, a música dita “clássica”, para alguns confinada a salas de concerto de elite, se expande inexoravelmente e torna-se opção acessível a todos por meio da internet e da popularização do conceito das grandes orquestras marcadas pela ambição e excelência artísticas – cujo exemplo mais clássico, em ambos os sentidos, é a OSESP. Os festivais de música que reúnem concertos e cursos com artistas e alunos do mundo todo se multiplicam no Brasil, multiplicando também outros grupos envolvidos – professores, estudantes, produtores, administradores, jornalistas e, justificando tudo isso, espectadores. Longe dos palcos, a música clássica também permeia o dia-a-dia embalando os bebês no quarto, confortando os enfermos nos hospitais ou simplesmente conquistando espaço nos PCs e tocadores portáteis.
Forma-se uma grande paisagem sonora, onde cada vez mais pessoas têm acesso a uma das mais ricas produções culturais da humanidade – a música ocidental dos últimos 200 anos, somada às contribuições de cada povo específico, com suas tradições, canções e danças características. E este mundo de sons não se pode prender em nenhum museu. Viaja por entre os momentos de nosso dia-a-dia, mesmo que disso não tenhamos consciência, e é capaz de nos modificar e enriquecer.
Crônicas, personagens, eventos, gravações e livros povoam este blog, que busca inspirar os leitores para a escuta mais rica possível.
Se fosse possível ficar cinco minutos diante de uma sinfonia de Beethoven, a admirá-la placidamente como faríamos com o quadro de Picasso acima, talvez os mais de 200 anos da música genial e profunda criada no Ocidente fossem mais difundidos e escutados hoje. Mas a música transcorre no tempo. Uma sinfonia ocupa uma grande parte de nosso dia corrido e exíguo. Não dá para admirar essa música como se estivéssemos diante de obras plásticas, ou vitrines de shopping centers.
Este blog sonha em reaproximar a música das pessoas, como quadros transcorrendo longamente no tempo. Mas este blog também sabe que a música é, primordialmente, a língua dos sons que não têm significado verbal. Por isso, sabe que é impossível explicar a música.
Não poderia haver inspiração melhor.
Se fosse suficiente ficar parado cinco minutos diante de uma sinfonia de Beethoven, a admirá-la placidamente como faríamos com o quadro de Picasso acima, talvez os mais de 200 anos da música genial e profunda criada no Ocidente fossem mais difundidos e escutados hoje. Mas a música transcorre no tempo. Uma sinfonia ocupa uma grande parte de nosso dia cada vez mais corrido e exíguo. Não dá para admirar essa música como se estivéssemos diante de obras plásticas, ou vitrines de shopping centers.
Este blog sonha em reaproximar a música das pessoas, como quadros transcorrendo longamente no tempo. Mas este blog também sabe que a música é, primordialmente, a língua dos sons que não têm significado verbal. Por isso, sabe que é impossível explicar a música.
Está cada vez mais difícil reclamar que a chamada música clássica é inacessível a todos os públicos. A prova mais recente: a série Musica Brasilis, com apoio do BNDES, tem seus concertos exibidos em vídeo e comentados na internet. “Os músicos querem ter acesso às partituras e os leigos querem se aproximar da música clássica”, afirmou a coordenadora do projeto, a inquieta cravista Rosana Lanzelotte, em entrevista à revista Concerto.
Além dos vídeos, estão disponíveis no site as partituras das peças executadas nos concertos em cinco cidades. Enquanto as notas são exibidas na tela, o internauta pode acompanhar descrições da obra. E o site inclui outros recursos, como um quiz musical com trechos sonoros, que buscam educar divertindo – a melhor maneira de atrair gente para o mundo da música erudita.
Está cada vez mais difícil reclamar que a chamada música clássica é inacessível a todos os públicos. A prova mais recente: a série Musica
Brasilis (http://www.musicabrasilis.com.br/), com apoio do BNDES, tem seus concertos exibidos em vídeo e comentados na internet. “Os músicos
querem ter acesso às partituras e os leigos querem se aproximar da música clássica”, afirmou a coordenadora do projeto, a inquieta cravista
Rosana Lanzelotte, em entrevista à revista Concerto (http://wwww.concerto.com.br).
Além dos vídeos, as partituras das peças executadas nos concertos em cinco cidades estão disponíveis no site. Enquanto elas são exibidas, o
internauta pode acompanhar uma descrição da obra. E o site inclui outros recursos, como um quiz musical com trechos sonoros, que buscam educar divertindo – a melhor maneira de atrair gente para o mundo d
No final de 2007, fiz uma viagem à Romênia, para apresentar um espetáculo que unia récitas de trechos de Guimarães Rosa e obras musicais do século 20. E o Rosa, tão intenso e criativo em sua linguagem, foi lido em português. Português para os romenos? Mas a língua também é música, ora. E música, todo mundo entende, não é? Escrevi, a pedido do blog Brasil-Romênia, um relato das impressões causadas pelo país, que transcrevo abaixo:
BICHOS ROMENOS
como todo bom sonhador, eu tinha medo de ir à Romênia. Pois o sonho é sempre ameaçado pela realidade. Para o brasileiro médio, a Romênia é um conceito abstrato, até mesmo suspeito. O país é quase inexistente. Já para um brasileiro romântico como eu, a Romênia ainda era geograficamente remota, apesar da globalização, e habitada por seres e coisas maravilhosas e desconhecidas, apesar da televisão. Eu ouvira falar de incríveis histórias de vampiros e revoluções transcorridas naquele solo. Havia uma aura de magia. O grande perigo era chegar lá e encontrar um país europeu ancião, chato, no auge da crise da terceira idade, como tantos do Velho Mundo.
Além disso, a Romênia, antes de minha visita, era uma girafa. Lembrava-me Guimarães Rosa, que visitou um zoológico em Berlim e depois anotou em sua caderneta que a girafa o observava e dizia: “Você não existe.” Pois bem. Eu tinha medo de que a Romênia me olhasse nos olhos e dissesse: “Você não existe.” Como eu alimentava sérias dúvidas sobre a existência da Romênia, a recíproca poderia ser verdadeira.
Por sorte, assim que pisei em território romeno, percebi que meus temores eram infundados. A Romênia não me rejeitou e continuou mágica. Já no aeroporto, acolhido por um simpaticíssimo brasileiro-romeno de nome Fernando Klabin (uma espécie de elo aparentemente perdido, mas na verdade muitíssimo achado, entre esses dois países de existência tênue), tive certeza de que a realidade dura e crua do Velho Mundo não me ameaçaria. O chão não era rígido, o frio não doía e o calor parecia humano. O ar não era o meu, mas tampouco era o de Paris, aproximando-se mais do ar de um longa-metragem, talvez porque brasileiros e romenos ainda vivessem sonhando. Enfim, a Romênia parecia ter aquele não-sei-quê - isso mesmo, aquele autêntico, exato e inconfundível não-sei-quê.
Para encurtar a conversa e o caminho de Otopeni a Bucareste, digo que o mesmo ar me perseguiu o tempo todo, como se estivesse em todos os lugares. Acompanhou-me também no recital de violão clássico no Palácio Cantacuzino, onde recitei Guimarães Rosa em português, para mostrar aos romenos a música de minha língua. Eles gostaram. Por outro lado, eu mesmo já estava lambido, isto é, embebido na música da língua deles, tanto que recitei, numa espécie de transe, um poema de Marin Sorescu em romeno, mesmo sem conhecer tecnicamente o idioma.
Foi mais uma prova inesquecível, para mim, de que os dois países se tocam ao cortar o longo espaço que os separa em sua parábola incerta. Não me traduzi para os romenos e não traduzi meus anfitriões para o português. Por êxtase poético ou preguiça, escapei inclusive da realidade crua da língua desmistificada. E fingi falar romeno, brincando com os sons, o que me deixou ainda mais próximo dos romenos do que se eu falasse seu idioma decodificado. Sonoramente íntimo, transitei em seus barulhos. Escutei sua música durante duas semanas fantásticas. E que música! Para meus ouvidos inocentes, era uma espécie de português embaralhado, ou desembaralhado, dependendo do ponto de vista. Sons que Roma deixou e a Itália e Portugal roubaram de volta mais tarde, transmitindo-os para a colônia italiana no Brasil, onde nasci (essa história inexiste, o que comprova minha teoria).
Ouvi falar de romenos ilustres, como um tal Dracul, aqui no Brasil citado como Drácula, mas também como o próprio Diabo, ou Demônio, ou Cujo, ou Dito, ou Coisa-Ruim, ou Aquele. Visitei o que diziam ser seu castelo, no qual eLE contudo não havia deixado nenhum rastro. Desconfiei do personagem.
Mas disseram-me que um outro capeta bebedor de sangue já havia habitado aquelas terras. Atendia pelo nome de Ceausescu e construíra um castelo maior ainda, no meio de Bucareste. Desse havia rastros, de modo que tive certeza de sua existência. Foi uma descoberta dolorosa e cataclísmica, que sacudiu a singela aura inexistente de minha Romênia interior.
Respirei fundo e decidi aceitar Drácula em meus sonhos, mas não aquele outro capeta existente, chato e cru. Se algum bicho romeno me mordeu, foi o tal Dracul, ou então um daqueles vampiros folclóricos que séculos atrás pululavam pelos campos e agora habitam o imaginário – se não os sótãos – das belas cidades. Existam ou não, voltarei para visitá-los.
Retornei ao Brasil com a sensação de uma irmandade bilateral subterrânea. Isso porque, ignorando a distância geográfica, política e comercial, muitos romenos se mostraram tão calorosos e hospitaleiros quanto muitos brasileiros que conheço. E os dois povos se tocam em muitos pontos além da língua: sua arte, sua literatura, sua música exibem a mesma vitalidade rítmica, a mesma potência anímica, quase apressada, ao manifestar sua vontade de existir. Assim pude confirmar mais uma vez que, pelas distâncias geográficas, o bom humor ainda se esgueira. Gostei de ter mais espaço para rir. Obrigado.
Como todo bom sonhador, eu tinha medo de ir à Romênia. Pois o sonho é sempre ameaçado pela realidade. Para o brasileiro médio, a Romênia é um conceito abstrato, até mesmo suspeito. O país é quase inexistente. Já para um brasileiro romântico como eu, a Romênia ainda era geograficamente remota, apesar da globalização, e habitada por seres e coisas maravilhosas e desconhecidas, apesar da televisão. Eu ouvira falar de incríveis histórias de vampiros e revoluções transcorridas naquele solo. Havia uma aura de magia. O grande perigo era chegar lá e encontrar um país europeu ancião, chato, no auge da crise da terceira idade, como tantos do Velho Mundo.
Além disso, a Romênia, antes de minha visita, era uma girafa. Lembrava-me Guimarães Rosa, que visitou um zoológico em Berlim e depois anotou em sua caderneta que a girafa o observava e dizia: “Você não existe.” Pois bem. Eu tinha medo de que a Romênia me olhasse nos olhos e dissesse: “Você não existe.” Como eu alimentava sérias dúvidas sobre a existência da Romênia, a recíproca poderia ser verdadeira.
Por sorte, assim que pisei em território romeno, percebi que meus temores eram infundados. A Romênia não me rejeitou e continuou mágica. Já no aeroporto, acolhido por um simpaticíssimo brasileiro-romeno de nome Fernando Klabin (uma espécie de elo aparentemente perdido, mas na verdade muitíssimo achado, entre esses dois países de existência tênue), tive certeza de que a realidade dura e crua do Velho Mundo não me ameaçaria. O chão não era rígido, o frio não doía e o calor parecia humano. O ar não era o meu, mas tampouco era o de Paris, aproximando-se mais do ar de um longa-metragem, talvez porque brasileiros e romenos ainda vivessem sonhando. Enfim, a Romênia parecia ter aquele não-sei-quê - isso mesmo, aquele autêntico, exato e inconfundível não-sei-quê.
Para encurtar a conversa e o caminho de Otopeni a Bucareste, digo que o mesmo ar me perseguiu o tempo todo, como se estivesse em todos os lugares. Acompanhou-me também no recital de violão clássico no Palácio Cantacuzino, onde recitei Guimarães Rosa em português, para mostrar aos romenos a música de minha língua. Eles gostaram. Por outro lado, eu mesmo já estava lambido, isto é, embebido na música da língua deles, tanto que recitei, numa espécie de transe, um poema de Marin Sorescu em romeno, mesmo sem conhecer tecnicamente o idioma.
Foi mais uma prova inesquecível, para mim, de que os dois países se tocam ao cortar o longo espaço que os separa em sua parábola incerta. Não me traduzi para os romenos e não traduzi meus anfitriões para o português. Por êxtase poético ou preguiça, escapei inclusive da realidade crua da língua desmistificada. E fingi falar romeno, brincando com os sons, o que me deixou ainda mais próximo dos romenos do que se eu falasse seu idioma decodificado. Sonoramente íntimo, transitei em seus barulhos. Escutei sua música durante duas semanas fantásticas. E que música! Para meus ouvidos inocentes, era uma espécie de português embaralhado, ou desembaralhado, dependendo do ponto de vista. Sons que Roma deixou e a Itália e Portugal roubaram de volta mais tarde, transmitindo-os para a colônia italiana no Brasil, onde nasci (essa história inexiste, o que comprova minha teoria).
Ouvi falar de romenos ilustres, como um tal Dracul, aqui no Brasil citado como Drácula, mas também como o próprio Diabo, ou Demônio, ou Cujo, ou Dito, ou Coisa-Ruim, ou Aquele. Visitei o que diziam ser seu castelo, no qual eLE contudo não havia deixado nenhum rastro. Desconfiei do personagem.
Mas disseram-me que um outro capeta bebedor de sangue já havia habitado aquelas terras. Atendia pelo nome de Ceausescu e construíra um castelo maior ainda, no meio de Bucareste. Desse havia rastros, de modo que tive certeza de sua existência. Foi uma descoberta dolorosa e cataclísmica, que sacudiu a singela aura inexistente de minha Romênia interior.
Respirei fundo e decidi aceitar Drácula em meus sonhos, mas não aquele outro capeta existente, chato e cru. Se algum bicho romeno me mordeu, foi o tal Dracul, ou então um daqueles vampiros folclóricos que séculos atrás pululavam pelos campos e agora habitam o imaginário – se não os sótãos – das belas cidades. Existam ou não, voltarei para visitá-los.
Retornei ao Brasil com a sensação de uma irmandade bilateral subterrânea. Isso porque, ignorando a distância geográfica, política e comercial, muitos romenos se mostraram tão calorosos e hospitaleiros quanto muitos brasileiros que conheço. E os dois povos se tocam em muitos pontos além da língua: sua arte, sua literatura, sua música exibem a mesma vitalidade rítmica, a mesma potência anímica, quase apressada, ao manifestar sua vontade de existir. Assim pude confirmar mais uma vez que, pelas distâncias geográficas, o bom humor ainda se esgueira. Gostei de ter mais espaço para rir. Obrigado.
O movimento da música antiga, que há décadas busca promover interpretações historicamente informadas em instrumentos de época (réplicas ou mesmo originais), já inspirou inúmeras concepções e gravações diferentes. A premissa é consenso: a importância documental e o valor artístico de se buscar a técnica, o estilo e a expressividade da época e do contexto em que as obras musicais foram compostas. Na prática, contudo, jamais se alcança verdades imutáveis. Afinal, a rigor não é possível reproduzir com total fidelidade as técnicas, a expressividade, o humor, as manias de épocas remotas das quais não há registro sonoro e, muitas vezes, nem mesmo registro em palavras.
Ainda bem. Se interpretações definitivas existissem, provavelmente haveria menos lugar para experiências surpreendentes como o registro das ‘Quatro Estações’ de Vivaldi pelo grupo de música barroca italiano Il Giardino Armonico, sob regência de Giovanni Antonini. Sua gama de dinâmica e andamento supera a média, tanto das orquestras antigas quanto das modernas. Não é sempre que se ouve tanta energia e personalidade em um conjunto pequeno, com instrumentos de época (como bom exemplo, assista ao vídeo acima pelo menos até o primeiro solo do concerto para violino). Os mais conservadores escutam até exageros. De qualquer modo, nas mãos do Giardino, esses instrumentos antigos derrubam qualquer desconfiança de que os instrumentos de hoje sejam mais precisos, potentes e condizentes com nossa época, nossas enormes salas de concerto e nossos ouvidos.
A despeito das querelas infindáveis sobre as interpretações históricas, é obrigatório ouvir a performance eletrizante do Giardino. Basta ouvir alguns acordes e linhas melódicas para notar como a concepção enérgica do regente transforma as Quatro Estações num animado teatro de sons, com especial poder expressivo. O grupo consegue extrair grandes tensões e contrastes daqueles instrumentos que, no fim das contas, são peças de madeira e cordas esticadas -basicamente, como os violinos e violoncelos modernos. Mas daí vem grande parte da dramaticidade: a fricção dos arcos parece ter mais garra, os crescendos parecem vir mais lá de baixo, parecem subir mais alto. Músicos superam teorias. Só ouvindo para ver.
Por falar em superar teoria, já ouviu um rabequeiro tradicional do nosso Nordeste? Aquele som rasgado, sofrido, que vem das entranhas da alma da gente e da madeira? Coisa que arranha, atrita, e nos faz a cócega certa para transmitir aquele mundo daqueles músicos. Experimente reproduzir as mesmas linhas melódicas e rítmicas desse instrumento rústico no melhor e mais caro violino moderno do planeta. Vai sair uma melodia teoricamente mais lisinha, polida, potente. E, na prática, sem graça.
Questões de interpretação à parte, talvez seja este um dos maiores segredos da sedução dos instrumentos considerados mais “rústicos”. Aparentemente limitados em quantidade (potência acústica), resta-lhes o mais importante: a qualidade.
Serviço:
Vivaldi: Le Quattro Stagioni
Il Giardino Armonico
Teldec, 2001
Mais populares